"Todo aquele que ler estas explanações, quando tiver certeza do que afirmo, caminhe lado a lado comigo; quando duvidar como eu, investigue comigo; quando reconhecer que foi seu o erro, venha ter comigo; se o erro for meu, chame minha atenção. Assim haveremos de palmilhar juntos o caminho da caridade em direção àquele de quem está dito: Buscai sempre a Sua face."

Agostinho de Hipona



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domingo, 10 de julho de 2011

A esperança que não se desespera



A esperança é o oxigênio que nos mantém vivos. Quem não tem esperança vegeta, não vive. Quem passa os anos de sua existência na masmorra do desespero, acorrentado pelo medo e subjugado pelas algemas da ansiedade, conhece apenas uma caricatura da vida. A vida verdadeira é timbrada pela esperança, uma esperança tão robusta que espera até mesmo contra esperança. Foi assim com Abraão, o pai da fé. Deus lhe prometeu um filho, em cuja descendência seriam abençoadas todas as famílias da terra. Abraão já estava com o corpo amortecido. Sua mulher, além de estéril, já estava velha demais para conceber. A promessa de Deus, porém, não havia se caducado. Contra todas as possibilidades humanas, contra todos os prognósticos da terra, contra todo o bom senso da razão humana, Abraão não duvidou por incredulidade, mas pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus e esperou mesmo contra a esperança, e o milagre aconteceu em sua vida. Isaque nasceu e com ele a esperança de uma descendência numerosa e bendita.

A esperança que não se desespera tem algumas características:

1. Ela está fundamentada não em sentimentos humanos, mas na promessa divina. Abraão não dependia de seus sentimentos, mas confiava na promessa. Deus havia lhe prometido um filho e essa promessa não havia sido revogada. Abraão já estava velho e seu corpo já estava amortecido, mas esse velho patriarca não confiava no que estava em seu interior, mas naquele que é superior. Não vivemos pelo que sentimos, vivemos agarrados na promessa. Não devemos nos estribar em nossas emoções instáveis, mas na Palavra estável e inabalável daquele que não pode mentir. As promessas de Deus não podem falhar. Ele é fiel para cumprir sua Palavra. Devemos tirar os olhos de nós mesmos e colocá-los em Deus. Dele vem a nossa esperança. Ele é a nossa esperança. Nele podemos confiar. 

2. Ela está fundamentada não em circunstâncias, mas naquele que governa as circunstâncias. A fé ri das impossibilidades, pois não é uma conjectura hipotética, mas uma certeza experimental. A fé não lida com possibilidades, mas com convicção. O objeto da fé não está no homem, mas em Deus. A fé não contempla as circunstâncias, mas olha para aquele que está no controle das circunstâncias. Abraão sabia que Deus poderia fortalecer seu corpo e ressuscitar a fertilidade no ventre de sua mulher. Sabia que o filho da promessa não seria fruto apenas de um nascimento natural, mas, sobretudo, de uma ação sobrenatural. A esperança que não se desespera não olha ao redor, olha para cima; não vê as circunstâncias, comtempla o próprio Deus que está no controle das circunstâncias. 

3. Ela está fundamentada não nas ações humanas, mas nas intervenções divinas. Abraão e Sara fraquejaram por um tempo na espera do filho da promessa. O resultado dessa pressa foi o nascimento de Ismael. A ação humana sem a condução divina resulta em sofrimento na terra, mas não em derrota no céu. O plano do homem pode ser atabalhoado, mas o plano de Deus não pode ser frustrado. Deus esperou Abraão chegar a seu limite máximo antes de agir. Esperou que todas as possibilidades da terra cessassem antes de realizar seu plano. Então, a promessa se cumpriu, o milagre aconteceu e Isaque nasceu. O limite do homem não limita Deus. A impossibilidade do homem não ameaça Deus, pois os impossíveis do homem são possíveis para Deus. Quando o homem chega ao fim dos seus recursos, Deus ainda tem à sua disposição toda a suprema grandeza do seu poder. Deus faz assim para que coloquemos nele toda a nossa confiança, para que tenhamos nele toda a nossa alegria e para que dediquemos a ele toda a glória devida ao seu nome.

sábado, 5 de setembro de 2009

ENTRE A ESPERANÇA E O CAOS

 Rev. Eurípedes da Conceição


Entre    06.08.2004 
O ataque terrorista ao World Trade Center, nos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001, levou a sociedade americana a repensar seus conceitos de segurança e suas práticas religiosas. As igrejas evangélicas, até então vazias, passam a ter uma freqüência maior aos cultos e celebrações. Alguns voltam a ler os textos proféticos e estudar temas escatológicos. Aquilo que já havia perdido vigor e vigência volta a ser tema de reflexão trazendo de volta algumas perguntas que não eram mais feitas: “Onde está Deus?” “Por que Ele não elimina o mal de uma vez por todas?” “Estaria Ele apático diante do sofrimento humano?” 


Nos dias de Jesus havia grande expectativa por parte dos discípulos acerca da sua vinda, que representaria o fim das dores e sofrimentos. Razão porque eles nutriam uma ansiedade patológica de saber o dia exato do seu retorno. Mas aos discípulos ele disse não sabia o dia da sua vinda, exceto o Pai (Mt 24. 36). Apesar do mistério, Jesus deixa uma porta aberta para a investigação quando aponta alguns sinais a serem observados como anúncio virtual da proximidade do seu retorno: Os sinais dos tempos (Mt 16. 3). Intrigados, alguns discípulos vieram a Jesus e lhe perguntaram: “Quando sucederão estas coisas e que sinal haverá da tua vinda e da consumação dos séculos?” 


Jesus começa a discorrer sobre “o principio das dores”, dando-lhes respostas acerca dos problemas daquela e da nossa época: “Vocês ouvirão falar em guerras e rumores de guerras, mas não se assustem porque é necessário que isso aconteça, mas ainda não será o fim. Nação se levantará contra nação e reino contra reino. Haverá fomes, pestes, doenças, terremotos em vários lugares. Mas tudo isso é apenas o principio de dores” (Mt 24. 6, 7). Estamos vivendo um tempo de tempestade, de terremoto; de fome, de miséria; de doenças de todo tipo, desde tuberculose, AIDS, DST’s (doenças sexualmente transmissíveis) ao câncer e doenças coronárias. O caos se apresenta como “monstro de vários tentáculos”, nas dimensões política , social, econômica, cultural e espiritual de nossa geração. É um tempo de mudanças e incertezas, de déficit habitacional, de divisões raciais, de aumento da criminalidade, de abusos sexuais; de aumento da pedofilia, mesmo nos arraiais religiosos, de estupros e desintegração da família. O alcoolismo, as drogas, a pornografia e outros comportamentos viciosos estão consumindo a sociedade. Há terremotos, furacões e desastres naturais de todo tipo. Isso é motivo de sobra para nos assustar, não é? Mas Jesus disse que tais acontecimentos são apenas avisos daquilo que está por vir; são a “imprensa divina” em funcionamento buscando alertar-nos acerca do que ele falou há dois mil anos. Esses “anúncios” materializados nos acontecimentos preditos por Jesus não são parábolas ou mitos que nós lemos no livro de Mateus, mas as notícias de última hora para os nossos dias. São evidências da profecia de Cristo que se cumpre em nosso tempo diante dos nossos olhos. Pergunta-se: “Qual a nossa possibilidade de segurança já que o cenário é tão desanimador?” “Como se sentir seguro em meio ao caos?”. 
É necessário apropriar-se da promessa de vida eterna feita por Jesus. O mais importante nessa passagem bíblica não é o fim dos tempos, mas a segurança eterna daqueles que depositam sua fé em Jesus. Ele estava falando sobre a última promessa que se concretiza na vida eterna com Deus. São palavras de esperança e não de desanimo. Para nos sentirmos seguros entre a esperança e o caos, é necessário perseverar na fé em meio à crise. A fé em Cristo nos ajuda a superar os conflitos desta vida e nos proporciona a certeza da vida futura com Deus. Os dias deste mundo já estão contados! Somente aqueles, cuja esperança está em Cristo, conseguirão superar o caos e a desordem da terra. O profeta Isaías, numa passagem que pré-anuncia a vinda de Cristo, escreveu: “Mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam” (Is 40. 31). 


Quando Jesus voltar, ele implantará seu reino de justiça social onde ódio, avareza, ciúme, guerra e morte não mais existirão.O próprio Jesus prometeu dar fim ao mal da era presente e estabelecer uma nova ordem chamada reino de Deus. Para nos sentirmos seguros entre a esperança e o caos, precisamos olhar para as dificuldades como possibilidades para o crescimento. 


Conta-se que um jovem que sempre tivera medo de relâmpagos foi obrigado a andar debaixo de uma tempestade em busca de auxilio para seu companheiro de acampamento, o qual tinha ficado seriamente doente durante a noite. O jovem - com a ajuda de uma lanterna - atravessava uma área montanhosa e isolada. A tempestade piorou. Seu medo de relâmpagos era tão grande quanto a sua preocupação pela saúde do amigo. Subitamente, um raio mais forte o fez tropeçar e derrubar a lanterna, quebrando-a. Quase paralisado de medo, sentiu-se totalmente desamparado. Nesse instante, à luz de um novo relâmpago, pôde enxergar o seu caminho. Uma tranqüilidade começou a apossar-se dele. Compreendeu que aquilo que há tanto tempo temia estava, na realidade, ajudando-o a enfrentar uma situação aparentemente sem saída. 


Muitas vezes deixamos nossos receios dominar-nos. Se, porém, tivermos fé, podemos estar certos de que Deus nos permite fazer dos relâmpagos o meio para seguirmos adiante e enfrentarmos com segurança os conflitos, as lutas e problemas. Esta é a receita para continuarmos esperançosos em meio ao caos! 


O autor é Pastor Efetivo da Igreja Presbiteriana da Tijuca, no Rio de Janeiro, Mestre em Educação Cristã e Doutorando em Ministério pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper.