"Todo aquele que ler estas explanações, quando tiver certeza do que afirmo, caminhe lado a lado comigo; quando duvidar como eu, investigue comigo; quando reconhecer que foi seu o erro, venha ter comigo; se o erro for meu, chame minha atenção. Assim haveremos de palmilhar juntos o caminho da caridade em direção àquele de quem está dito: Buscai sempre a Sua face."

Agostinho de Hipona



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sexta-feira, 14 de junho de 2013

Por que a igreja deve orar?



A oração é a maior força que atua na terra. Orar é conectar o altar com o trono, é unir a fraqueza humana à onipotência divina. É entrar na sala do trono e falar com aquele que tem as rédeas da história em suas mãos. Sendo Deus soberano, escolheu agir na história por meio das orações do seu povo. A oração move o braço daquele que governa o universo. Nada é impossível para oração feita a Deus, em nome de Jesus, no poder do Espírito, porque nada é impossível para Deus. Tudo quanto Deus pode fazer, pode ser alcançado pela oração. Uma igreja de joelhos tem mais poder do que um exército. Destacaremos três pontos para nossa reflexão. 

Em primeiro lugar, pela oração Deus traz grandes livramentos ao seu povo. Israel estava no cativeiro, debaixo da chibata dos egípcios, com os pés no barro e as costas esfoladas. O povo clamou a Deus e Deus viu, ouviu e desceu para libertá-lo da escravidão. Pedro estava preso, na prisão máxima de Herodes, sob forte vigilância de escolta policial, aguardando o final da Páscoa para ser executado. Havia, porém, oração incessante da igreja em seu favor. Deus enviou seu anjo para despertar Pedro e adormecer os guardas. A situação se inverteu: Pedro foi solto e Herodes foi morto. Quando a igreja ora, os céus se movem, a igreja é fortalecida e os inimigos são desbaratados. 

Em segundo lugar, pela oração Deus cura os enfermos. Deus perdoa todas as nossas iniquidades e sara todas as enfermidades. Ele é o Jeová Rafá, o Deus que nos cura. Para ele não há causa demasiadamente difícil. Portanto, a última palavra não é da medicina, mas de Deus. Assim como Jesus, em seu ministério terreno, levantou os paralíticos, curou os cegos e purificou os leprosos, assim também, hoje, ele cura os enfermos em resposta às orações da igreja. Devemos nos aproximar de Deus como o leproso aproximou-se de Jesus: "Senhor, se tu quiseres, tu podes purificar-me". Deus pode tudo quanto ele quer. Para ele não há doença incurável nem causa perdida. Por isso, os apóstolos oraram pelos enfermos. Os pais da igreja oraram pelos enfermos. Os reformadores oraram pelos enfermos. Os avivalistas oraram pelos enfermos. Nós, também, precisamos orar pelos enfermos, pois a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o levantará. 

Em terceiro lugar, pela oração Deus fortalece sua igreja com poder. Os grandes reavivamentos espirituais aconteceram em resposta às orações da igreja. O derramamento do Espírito é sempre precedido pela oração e vem em resposta às orações. O Espírito Santo desceu sobre Jesus no rio Jordão quando ele estava orando. O Espírito Santo foi derramado no Pentecostes quando a igreja perseverava unânime em oração. O poder de Deus vem pela oração. Sem oração não há poder. Sem oração a pregação não produz vida. Os apóstolos entenderam que deveriam se consagrar à oração e ao ministério da Palavra. Oração e Palavra precisam caminhar juntas. Precisamos ter luz na mente e fogo no coração. Não basta apenas proferir a Palavra de Deus, é preciso ser boca de Deus. Não basta conhecer a respeito de Deus, é preciso ter intimidade com Deus. Sem oração os púlpitos serão fracos e infrutíferos. A pregação é lógica em fogo. O pregador precisa arder. Precisa pregar no poder do Espírito e em plena convicção. O apóstolo Paulo disse que a sua palavra e a sua pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder. Que a igreja se desperte para oração e que por meio da oração humilde, fervorosa e perseverante, as torrentes do Espírito caiam sobre nós, trazendo restauração para a igreja e salvação para os perdidos.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Resposta


Leitura Bíblica: Deuteronômio 3.23-28 

VERSÍCULO EM DESTAQUE: [O Senhor] "conceda-te o desejo do teu coração e leve a efeito todos os teus planos" (Salmos 20.4).

É muito bom ouvir alguém desejando a nós o que está escrito no versículo em destaque. Queremos que Deus atenda nossa oração, de preferência o mais rápido possível. No texto de hoje vemos que Moisés chegou a implorar a Deus para que o deixasse entrar em Canaã. Mas, como todos sabemos, Deus nem sempre responde às nossas orações como e quando gostaríamos. Moisés acusou o povo, mas sabia que tinha sido desobediente (Números 20.8-12) e Deus estava sendo justo. Mesmo assim, recebeu um privilégio: subir num monte e olhar a terra de longe (Deuteronômio 34). Moisés morreu sem ter realizado seu grande sonho. Deus tinha outros planos: usaria Josué, ajudante do grande líder, para conduzir Israel na conquista de Canaã. 

Deus não é um "gênio da lâmpada" ou um "papai noel" celestial. Ele não precisa atender nossos desejos (aliás, é bom lembrar quem é servo neste relacionamento). Apesar disso, ele é tão bom que às vezes nos permite, tempos depois, realizar aquilo que queríamos. No Novo Testamento, em Mateus 17.1-8, lemos sobre um episódio estranho mas glorioso na vida de Jesus. E quem aparece no "monte da transfiguração"? Moisés! 

Há algumas discussões entre os estudiosos sobre qual seria aquele monte, mas com certeza ele estava localizado na terra conquistada pelos israelitas - na qual Moisés tanto quis entrar. Desta forma, muitos séculos após seu pedido, ele concretizou seu sonho. Lá estava ele, na Terra Prometida que apenas vira de longe, e conversando com o próprio Filho de Deus! A resposta de Deus, mesmo que tardia, foi muito superior ao pedido feito. 

Pensando nisso, devemos ser gratos por todas as respostas às nossas orações. Quando Deus não atende nossos desejos, podemos confiar que ele sabe o que está fazendo e que isso é o melhor para nós e para as pessoas que nos rodeiam. Deus, sendo tão amoroso, talvez esteja reservando boas surpresas para o nosso futuro.

O Pão Diário 2012 (16/08/2012)

Autor: Vanessa Weiler Ribas - Ijuí - RS

terça-feira, 5 de junho de 2012

O poder de Elias


A oração de um justo é poderosa e eficaz. Elias era humano como nós. Ele orou fervorosamente para que não chovesse, e não choveu sobre a terra durante três anos e meio. Orou outra vez, e os céus enviaram chuva, e a terra produziu os seus frutos. (Tiago 5:16b-18)
Por Vincent Cheung
Há dois tipos de lições que podemos extrair de um homem de Deus imperfeito. Podemos ficar inspirados a imitá-lo por causa de seu fracasso; isto é, visto que até mesmo Elias tinha suas imperfeições e momentos de fraqueza, somos encorajados a perseverar em nossas lutas. Mas Tiago nos leva numa direção diferente – ele nos aponta para o sucesso de Elias, e ao seu poder em oração como um exemplo para nós. A ênfase não é que, embora Elias fosse um grande profeta, ele era todavia falho como nós; antes, visto que Elias era um homem como nós, isso significa que podemos ser como ele! A lição não é que, porque ele fugiu e se retraiu, não deveríamos nos sentir desesperados quando nos encontramos fazendo a mesma coisa; em vez disso, a lição é que mesmo em nossa fraqueza e fragilidade humana, podemos aspirar ao poder do profeta.
Há uma terceira forma de aludir a um homem de Deus, e essa é quando pregadores e teólogos nos dizem: “Você não pode fazer isso. Você não pode ser como ele. Ele era um apóstolo”. Dessa maneira, eles tentam restringir nossa intrepidez, sufocar nossa fé e apagar o Espírito, mesmo quando o dom de Deus queima dentro de nós. É o chamado da incredulidade buscando companhia. Eles não aprenderam isso da Bíblia, e Tiago não nos ensina a pensar dessa forma. Antes, Tiago diria que Paulo era um homem assim como nós, e Pedro era um homem como nós, e visto que eles fizeram coisas maravilhosas para o Senhor, assim podemos nós, pois “a oração de um justo é poderosa e eficaz”. Nós confiamos no poder de Cristo, e ele é maior do que qualquer apóstolo ou profeta. Se Deus ouviu Paulo, Pedro e Elias, então ele nos ouve também. Tiago refere-se a Elias não para rebaixá-lo ao nosso nível, mas para que possamos subir ao nível dele.
Como deveríamos responder àqueles que ensinam incredulidade? Dizemos: “Certo, ele era um apóstolo, e evidentemente você é um zé ninguém. Assim, eu prefiro seguir o seu exemplo de fé e poder, e sua ousadia na pregação, do que seguir um perdedor como você. Ele era um apóstolo, e é precisamente por isso que imitarei o seu sucesso tanto quanto puder. Mas você quer que eu me torne um fraco, fracassado e impotente como você. Isso não acontecerá”. Ora, se a Bíblia nos ensina a imitar até mesmo Jesus, que é mais do que um homem como nós, então ela nos ensina a pensar como vencedores e empreendedores espirituais. Dessa forma, aprenderemos a fé de Abraão e de Raabe (2.20-26), a perseverança dos profetas e de Jó (5.10-11) e a fé e poder de Elias (5.17-18).
Nossos pregadores e teólogos gostam muito de Neemias, e referem-se a ele como um exemplo de confiança na providência oculta de Deus. Eu não tenho nenhuma objeção a isso. No entanto, Tiago não cita Neemias para ilustrar o tipo de poder que está disponível para nós em Cristo. Ele cita Elias, que orou e a chuva cessou durante três anos e meio, e orou novamente, e o céu deu chuva, e a terra produziu os seus frutos. Tenhamos sempre em mente que não seremos julgados pelos líderes e estudiosos incrédulos, mas pelo Senhor Jesus sobre como respondemos às suas palavras, isto é, ao que a Bíblia realmente ensina. Falso ensino dos homens nunca é uma desculpa, pois se somos tão facilmente seduzidos pela incredulidade, então deve haver alguma atração nele para nós em primeiro lugar. Mas Tiago fala a verdade, e ele encoraja a nossa fé. Jesus Cristo nos reconciliou com Deus, e agora nossas orações podem ser poderosas e eficazes, até mesmo como as orações de Elias.
Fonte: Sermonettes, Volume 4, p. 32-34
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto – novembro/2011


MONERGISMO


Vincent Cheung é autor de trinta livros e centenas de palestras sobre uma gama de assuntos em teologia, filosofia, apologética e espiritualidade. Através dos seus livros e palestras, ele está treinando cristãos para entender, proclamar, defender e praticar a cosmivisão bíblica como um sistema de pensamento abrangente e coerente, revelado por Deus na Escritura. Vincent Cheung reside em Boston com sua esposa Denise.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Série Oração do Pai-Nosso - Nossa imagem de Deus (7ª)

Publicaremos mais uma série de 7 postagens de autoria do Pastor John Stott sobre A ORAÇÃO DO PAI-NOSSO contidas no Devocionário “A BÍBLIA TODA O ANO TODO”, Editora Ultimato.

No ensino de Jesus sobre a oração, conforme registrado em Mateus 6.7-15, Ele enfatiza que a hipocrisia não é o único pecado a ser evitado na oração. Há outro, que são as “vãs repetições” (v.7, ARA), ou expressões sem sentido e mecânicas. O primeiro é a tolice do fariseu; o segundo é do gentio, ou pagão. A hipocrisia é uma deturpação do propósito da oração (desviando-a da glória de Deus para a glória do eu); a verborragia é uma deturpação da própria natureza da oração (tornando-a, de uma abordagem real e pessoal a Deus, em um mero recitar de palavras). Jesus então contrasta o modo pagão de eloquência sem sentido com o modo cristão da comunhão significativa com Deus, e ilustra isso por meio da beleza e do equilíbrio da oração do Pai-Nosso.




”Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar boas coisas aos seus filhos, quanto mais o Pai de vocês, que está nos céus, dará coisas boas aos que lhe pedirem!” Mateus 7.11

Parece que Jesus nos deu, na oração do Pai Nosso, um modelo de oração verdadeira, oração cristã, em contraste com as orações dos fariseus e dos pagãos. Por certo alguém poderia recitar a oração do Pai Nosso hipocritamente, de forma mecânica ou de ambas as maneiras. Mas, se as nossas palavras expressam aquilo que pensamos, a oração do Pai Nosso então se torna a alternativa divina para ambas as formas de oração falsa.

O erro do hipócrita é o egoísmo. Mesmo em suas orações, ele está obcecado com sua autoimagem e em como ela aparenta estar aos olhos do observador. Na oração do Pai Nosso, no entanto, os cristãos estão obcecados em Deus – com Seu nome, Seu reino e Sua vontade, não com a deles.

O erro do pagão é a insensatez. Ele fica tagarelando, dando voz à sua liturgia sem propósito. Contra essa tolice, Jesus nos convida a fazermos conhecidas nossas necessidades diante do nosso Pai celestial, com reflexão humilde, e assim expressar nossa dependência diária dEle.

Desse modo, a diferença fundamental entre vários tipos de oração são as imagens essencialmente diferentes de Deus que se encontram por trás deles. Que espécie de Deus é esse que poderia estar interessado em orações tão egoístas e desleixadas? Seria Deus uma mercadoria que podemos usar para promover o nosso próprio status, ou um computador que podemos alimentar com palavras? Dessas noções indignas, nos voltamos com alívio ao ensino de Jesus de que Deus é o Pai nosso que está nos céus. Precisamos nos lembrar de que Ele ama Seus filhos com a mais terna feição; que vê Seus filhos mesmo em lugar secreto; que conhece as necessidades de Seus filhos antes que eles peçam algo a Ele; e que age em favor deles com Seu poder celeste e real. Se assim permitirmos que a Escritura modele a nossa imagem de Deus, nunca iremos orar com hipocrisia, mas sempre com integridade; nunca de forma mecânica, mas sempre reflexivamente, como filhos de Deus que somos.

Para saber mais: Mateus 7.7-11

segunda-feira, 21 de março de 2011

Série Oração do Pai-Nosso - Livra-nos do mal (6ª)

Publicaremos mais uma série de 7 postagens de autoria do Pastor John Stott sobre A ORAÇÃO DO PAI-NOSSO contidas no Devocionário “A BÍBLIA TODA O ANO TODO”, Editora Ultimato.

No ensino de Jesus sobre a oração, conforme registrado em Mateus 6.7-15,  Ele enfatiza que a hipocrisia não é o único pecado a ser evitado na oração. Há outro, que são as “vãs repetições” (v.7, ARA), ou expressões sem sentido e mecânicas. O primeiro é a tolice do fariseu; o segundoi é do gentio, ou pagão. A hipocrisia é uma deturpação do propósito da oração (desviando-a da glória de Deus para a glória do eu); a verborragia é uma deturpação da própria natureza da oração (tornando-a, de uma abordagem real e pessoal a Deus, em um mero recitar de palavras). Jesus então contrtasta o modo pagão de eloquência sem sentido com o modo cristão da comunhão significativa com Deus, e ilustra isso por meio da beleza e do equilíbrio da oração do Pai-Nosso.


“E não os induzas à tentação; mas livra-nos do mal.” Mateus 6.13, ACF

Essa duas últimas petiçoes da oração do Pai Nosso na verdade são uma. Provavelmante devem ter sido tomadas juntas como aspectos negativos e positivos da mesma oração. Dosi problemas, no entanto, nos confrontam.

Primeiro, a Bíblia nos diz que Deus não nos tenta, ou não pode nos tentar (Tg 1.13). Sendo assim, qual o sentido de orar para que Ele não faça aquilo que prometeu nunca fazer? Alguns respondem interpretando “tentação” como “provação”. Uma melhor explicação, no entanto, está na união dos duas orações do período: entender “não nos induza à tentação” à luz da contrapartida “livra-nos do mal”, e interpretar “mal” como “o maligno”. Ou seja, é o Diabo que está à vista, que tenta induzir o povo de Deus a pecar, e de quem precisamos ser resgatados.

Segundo, a Bíblia diz que as tentações e provas são boas para nós (tg 1.2). Se elas são benéficas, então porque orarmos para não cairmos nelas? A resposta provável é que essa é uma oração mais para vencermos a tentação do que para evitá-la. Poderíamos então parafrasear a petição: “Não permitas que sejamos levados à tentação e caiamos nela, mas que sejamos resgatados do mal”.

Olhando para trás agora, podemos observar que as três petições da oração do Pai Nosso são maravilhosamente abrangentes. Em princípio, elas cobrem todas as nossas necessidades humanas – materiais (o pão nosso de cadas dia), espirituais (o perdão dos nossos pecados) e morais (nosso livramento do mal). Quando fazemos essa oração, estamos expressando nossa humilde dependência de Deus em todas as áreas da existência humana. Além disso, um cristão trinitáriano tem a obrigação de ver nessas três petições uma alusão velada às três pessoas da Trindade, uma vez que é por meio da criação e da providência do Pai que recebemos o pão nosso de cada dia; é a través da morte substitutiva do Filho que recebemos o perdão dos nossos pecados; e é por intermédio do poder do Espírito Santo, que habita em nós, que podemos ser livres do mal. Não é de admirar que alguns manuscritos antigos (embora não os melhores) terminem com a doxologia, atribuindo o reino, o poder e a glória a esse Deus triúno a quem eles pertencem com exclusividade.

Para saber mais: 1 João 3.7-10   

quinta-feira, 17 de março de 2011

Série Oração do Pai-Nosso - Perdoa os nossos pecados (5ª)

Publicaremos mais uma série de 7 postagens de autoria do Pastor John Stott sobre A ORAÇÃO DO PAI-NOSSO contidas no Devocionário “A BÍBLIA TODA O ANO TODO”, Editora Ultimato.

No ensino de Jesus sobre a oração, conforme registrado em Mateus 6.7-15,  Ele enfatiza que a hipocrisia não é o único pecado a ser evitado na oração. Há outro, que são as “vãs repetições” (v.7, ARA), ou expressões sem sentido e mecânicas. O primeiro é a tolice do fariseu; o segundoi é do gentio, ou pagão. A hipocrisia é uma deturpação do propósito da oração (desviando-a da glória de Deus para a glória do eu); a verborragia é uma deturpação da própria natureza da oração (tornando-a, de uma abordagem real e pessoal a Deus, em um mero recitar de palavras). Jesus então contrtasta o modo pagão de eloquência sem sentido com o modo cristão da comunhão significativa com Deus, e ilustra isso por meio da beleza e do equilíbrio da oração do Pai-Nosso.



”Perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores.” Mateus 6.12

Marghanita Laski, famosa romansista e crítica inglesa do século 20, jamais escondeu o seu ateísmo. Um dia, no entanto, na televisão, num momento surpreendente de sinceridade, ela deixou escapar: ”O que eu mais sinvejo nos cristãos é o perdão que receberam; não tenho ninguém para me perdoar”. Ela estava certa. O perdão está no cerne do evangelho. Na verdade, ele é indispensável para a vida e a saúde da alma, assim como o alimento o é para o corpo.

Desse modo, a petição seguinte, na oração do Pai-Nosso, é “perdoa as nossas dívidas”. O pecado se assemelha a uma dívida porque merece ser punido e porque, quando Deus nos perdoa, Ele perdoa as dívidas e retira a acusação contra nós.

A adição das palavras “assim como perdoamos aos nossos devedores” é enfatizada mais adiante nos versículos 14 e 15, que seguem a oração e declaram que nosso Pai nos perdoará se perdoarmos aos outros, mas que não nos perdoará se nos recusarmos a perdoar aos outros. Isso certamente não quer dizer que nosso perdão aos outros nos dará o direito de sermos perdoados, mas que Deus perdoa somente ao arrependido e que uma das principais evidências do verdadeiro arrependimento é o espírito perdoador. Uma vez que nossos olhos tenham sido abertos para ver o tamanho enorme de nossas ofensas contra Deus, as injúrias que outros possam ter cometido cotra nós parecem extremamente insignificantes. Se, por outro lado, temos uma visão exagerada das ofensas dos outros, isso mostra que temos minimizado as nossas. É a disparidade entre o tamanho das dívidas que é o ponto principal da parábola do servo impiedoso. Sua conclusão é: “Cancelei toda a tua dívida [que era enorme]... Você não deveria ter tido misericórdia do seu concervo [cuja dívida era insignificante] como eu tive de você? (18.32-33)

Para saber mais: Mateus 18.23-35

sexta-feira, 11 de março de 2011

Série Oração do Pai-Nosso - Dá-nos o pão de cada dia (4ª)

Publicaremos mais uma série de 7 postagens de autoria do Pastor John Stott sobre A ORAÇÃO DO PAI-NOSSO contidas no Devocionário “A BÍBLIA TODA O ANO TODO”, Editora Ultimato.

No ensino de Jesus sobre a oração, conforme registrado em Mateus 6.7-15,  Ele enfatiza que a hipocrisia não é o único pecado a ser evitado na oração. Há outro, que são as “vãs repetições” (v.7, ARA), ou expressões sem sentido e mecânicas. O primeiro é a tolice do fariseu; o segundoi é do gentio, ou pagão. A hipocrisia é uma deturpação do propósito da oração (desviando-a da glória de Deus para a glória do eu); a verborragia é uma deturpação da própria natureza da oração (tornando-a, de uma abordagem real e pessoal a Deus, em um mero recitar de palavras). Jesus então contrtasta o modo pagão de eloquência sem sentido com o modo cristão da comunhão significativa com Deus, e ilustra isso por meio da beleza e do equilíbrio da oração do Pai-Nosso.


“Não me dês nem pobreza nem riqueza; dá-me apenas o alimento necessário.” Provérbios 30.8


Na segunda metade da oração do Pai-Nosso, o adjetivo possessivo muda de tu para nós; nos voltamos para questões relacionadas a Deus para as que dizem respeito a nós. Tendo expressado nosso interesse ardente pela glória de Deus, expressamos agora nossa humilde dependência de sua graça. Embora as nossas necessidades pessoais tenham sido relegadas a segundo plano, elas não foram eliminadas. Evitar mencioná-las por não querermos incomodar a Deus com tais trivialidades é um grande erro; tanto quanto permitir que elas dominem as nossas orações. 


Alguns comentaristas antigos não conseguiam crer que Jesus desejasse que o nosso primeiro pedido fosse pelo pão literal. Parecia inadequado a eles. Assim, eles tornaram a petição em uma alegoria. Pais da igreja, como Tertuliano, Cipriano e Agostinho pensaram que a referência fosse ao pão invisível ou à Palavra de Deus (Agostinho), ou ao pão sacramental da santa ceia. Deveríamos ser gratos pelo entendimento mais abrangente e prático dos reformadores. Calvino chamou a espiritualização dos pais da igreja de “imensamente absurda”. Lutero escreveu que o pão era um sinônimo de “tudo o que era necessário para a preservação da desta vida, como o alimento, o corpo saudável, o clima agradável, a casa, o lar, a esposa, os filhos, os bons governos e a paz”.

A oração para que Deus nos dê essas coisas não nega, é claro, que a maioria das pessoas tenha de ganhar o seu sustento ou que sejamos conclamados a alimentar os famintos. Ao contrário, ela é uma expressão de nossa extrema dependência de Deus, que normalmente usa meios humanos de produção e de distribuição através dos quais realiza os seus propósitos. Além disso, parece que Jesus queria que seus seguidores estivessem conscientes de uma dependência diária. O adjetivo grego epiousios em “o pão nosso de cada dia” era totalmente desconhecido dos antigos, tanto que Orígenes pensou que os evangelistas o tivessem cunhado. Quer ele signifique “para o dia presente” ou “para o dia seguinte”, trata-se de uma oração pelo futuro imediato. Devemos viver um dia de cada vez. Dar graças antes das refeições é reconhecer isso. E trata-se de um valioso hábito cristão.

Para saber mais: Deuteronômio 26.1-11    


  


sexta-feira, 4 de março de 2011

Série Oração do Pai-Nosso - Interesse pela glória de Deus (3ª)

Publicaremos mais uma série de 7 postagens de autoria do Pastor John Stott sobre A ORAÇÃO DO PAI-NOSSO contidas no Devocionário “A BÍBLIA TODA O ANO TODO”, Editora Ultimato.

No ensino de Jesus sobre a oração, conforme registrado em Mateus 6.7-15,  Ele enfatiza que a hipocrisia não é o único pecado a ser evitado na oração. Há outro, que são as “vãs repetições” (v.7, ARA), ou expressões sem sentido e mecânicas. O primeiro é a tolice do fariseu; o segundoi é do gentio, ou pagão. A hipocrisia é uma deturpação do propósito da oração (desviando-a da glória de Deus para a glória do eu); a verborragia é uma deturpação da própria natureza da oração (tornando-a, de uma abordagem real e pessoal a Deus, em um mero recitar de palavras). Jesus então contrtasta o modo pagão de eloquência sem sentido com o modo cristão da comunhão significativa com Deus, e ilustra isso por meio da beleza e do equilíbrio da oração do Pai-Nosso.




“Pai nosso, que estais nos céus! Santificado seja o Teu nome. Venha o Teu Reino; seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu.” Mateus 6.9-10

A oração do Pai Nosso contém seis petições. As três primeiras dizem respeito à glória de Deus (Seu nome, Seu Reino e Sua vontade). Já o segundo trio de pedidos se refere a nós e às nossas necessitades (o pão de cada dia, o perdão e o livramento). Uma prioridade semelhante é reconhecida nos Dez Mandamentos, quando os cinco primeiros lidam com a nossa obrigação para com Deus, e os outros cinco, com a nossa obrigação para com o próximo.

Hoje iremos concentrar nossa atenção na glória de Deus em relação ao Seu nome, Seu Reino e Sua vontade. Um nome representa a pessoa que o tem, sua natureza, caráter e atividade. Sendo assim, o “nome” de Deus é o próprio Deus, uma vez que revela a si mesmo. Seu nome já é santo por se exaltado acima de todo nome. No entanto, oramos para que Ele seja santificado, ou seja, que receba a honra que lhe é devida em nosssas vidas, na igreja e no mundo.

O Reino de Deus é o Seu domínio real, não somente em Sua absoluta soberania sobre a natureza e a história, mas também ao ter entrado no mundo com Jesus. Orar pela vinda do Reino é orar para que ele cresça à medida que as pessoas se submetem a Jesus através do testemunho da igreja, e para que ele seja consumado quando Jesus retormar em glória.

 A vontade de Deus é a vontade dAquele que é perfeito em conhecimento, amor e poder. Por isso é tolice resistir a ela. E é sabedoria discerní-la, desejá-la e cumprí-la. Precisamos orar, portanto, para que a vontade de Deus seja feita na terra assim como no céu.      

É relativamente fácil repetir as palavras do Pai Nosso como um papagaio, ou como um “tagarela” pagão. Orá-las com sinceridade, contudo, tem implicações revolucionárias. Nosssa prioridade se torna não mais a promoção do nosso insignificante nome, reino e vontade, mas do de Deus. Conseguirmos orar essas petições com integridade será um teste de busca da realidade e da profundidade de nossa profissão cristã.

Para saber mais: Efésios 1.3-14

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Série Oração do Pai-Nosso - A oração cristã (2ª)

Publicaremos mais uma série de 7 postagens de autoria do Pastor John Stott sobre A ORAÇÃO DO PAI-NOSSO contidas no Devocionário “A BÍBLIA TODA O ANO TODO”, Editora Ultimato.

No ensino de Jesus sobre a oração, conforme registrado em Mateus 6.7-15,  Ele enfatiza que a hipocrisia não é o único pecado a ser evitado na oração. Há outro, que são as “vãs repetições” (v.7, ARA), ou expressões sem sentido e mecânicas. O primeiro é a tolice do fariseu; o segundoi é do gentio, ou pagão. A hipocrisia é uma deturpação do propósito da oração (desviando-a da glória de Deus para a glória do eu); a verborragia é uma deturpação da própria natureza da oração (tornando-a, de uma abordagem real e pessoal a Deus, em um mero recitar de palavras). Jesus então contrtasta o modo pagão de eloquência sem sentido com o modo cristão da comunhão significativa com Deus, e ilustra isso por meio da beleza e do equilíbrio da oração do Pai-Nosso.


”Não sejam iguais a eles [os pagãos], porque o seu Pai sabe de que vocês precisam, antes mesmo de O pedirem.” (Mateus 6.8)

A razão pela qual os cristãos não devem orar como os pagãos é que cremos no Deus vivo e verdadeiro. Não devemos fazer como eles fazem porque não devemos pensar como eles pensam. Pelo contrário, “o seu Pai sabe do que vocês precisam, antes mesmo de o pedirem”. Ele não é nem ignorante acerca de suas necessidades nem hesitante em atendê-las. Por que, então, devemos orar? Qual a utilidade da oração? Deixemos Calvino responder às nossas perguntas com sua costumeira clareza:

“Crentes não oram com o objetivo de informar a Deus sobre coisas que Lhe sejam desconhecidas, ou de instigá-lO a cumprir Sua obrigação, ou de conclamá-lO, como se estivesse relutante. Pelo contrário, eles oram a fim de que possam despertar a si mesmos com o intuito de buscá-lO, exercitar sua fé na meditação em Suas promessas, aliviar-se de suas ansiedades ao derramar-se em Seu seio; em uma palavra, que possam declarar que têm esperança e esperam dEle somente, para si mesmos e para os outros, todas as coisas boas.”

Se a oração dos fariseus era hipócrita e a dos pagãos mecânica, a oração dos cristãos por sua vez deve ser verdadeira – sincera em oposição à hipocrisia, reflexiva em oposição à mecânica.

A chamada oração do Pai-Nosso foi dada por Jesus como um modelo de como deve ser a oração genuína do cristão. De acordo com Mateus. Ele a deu como um padrão a ser copiado (“Vocês orem assim...”, v.9); de acordo com Lucas, como uma forma a ser usada (“Quando vocês orarem, digam...”, Luc 11.2). Na verdade, podemos usar a oração de ambas as maneiras.

Jesus nos ensinou a nos dirigirmos a Deus como “Pai nosso, que estais nos céus” (v.9). Isso implica, primeiramente, que Ele é pessoal. Ele talvez esteja na famosa expressão de C. S. Lewis. “para além da personalidade”, mas, com certeza, não se encontra aquém. Em segundo lugar, Ele é amoroso. Não é o tipo de pai que ouvimos às vezes – autocrata, playboy, beberrão – mas alguém que preenche os ideais de paternidade no cuidado amoroso com os seus filhos. Em terceiro lugar, Ele é poderoso. Aquilo que o Seu amor indica, Seu poder é capaz de realizar. É sempre sábio, antes de orarmos, passar um tempo lembrando quem é aquEle a quem estamos nos dirigindo.

Para saber mais: Mateus 6.7-13               


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Série Oração do Pai-Nosso - A oração pagã (1ª)

Publicaremos mais uma série de 7 postagens de autoria do Pastor John Stott sobre A ORAÇÃO DO PAI-NOSSO contidas no Devocionário “A BÍBLIA TODA O ANO TODO”, Editora Ultimato.

No ensino de Jesus sobre a oração, conforme registrado em Mateus 6.7-15,  Ele enfatiza que a hipocrisia não é o único pecado a ser evitado na oração. Há outro, que são as “vãs repetições” (v.7, ARA), ou expressões sem sentido e mecânicas. O primeiro é a tolice do fariseu; o segundoi é do gentio, ou pagão. A hipocrisia é uma deturpação do propósito da oração (desviando-a da glória de Deus para a glória do eu); a verborragia é uma deturpação da própria natureza da oração (tornando-a, de uma abordagem real e pessoal a Deus, em um mero recitar de palavras). Jesus então contrasta o modo pagão de eloquência sem sentido com o modo cristão da comunhão significativa com Deus, e ilustra isso por meio da beleza e do equilíbrio da oração do Pai-Nosso.


“E quando orarem, não fiquem sempre repetindo a mesma coisa, como fazem os pagãos. Eles pensam que por muito falarem serão ouvidos” Mateus 6.7.

O verbo grego battalogeo é traduzido em várias situações como “usar vãs repetições”, “amontoar frases vazias” e “ficar balbuciando”. Ele não aparece em nenhum outro lugar, e ninguém sabe ao certo o que significa. Alguns estudiosos pensam que ele se originou de um rei Batos, que era gago; ou de outro Batos, que eta autor de poemas enfadonhos e prolixos. Acima de tudo, no entanto, ele é uma expressão onomatopeica, o som da palavra indicando seu significado. Assim como battarizo significa “gaguejar”, e barbaros era “bárbaro”, cuja língua os gregos não conseguiam entender, battalogeo poderia simplesmente significar “tagarelar”.

O que então Jesus estaria proibindo na oração? Não toda repetição, uma vez que ele mesmo, no Getsêmani, orou por várias vezes dizendo a mesma coisa. O que Ele condenou foram todas as orações que consistem em palavras sem significado. Isso por certo incluiria orações repetitivas e orações espalhafatosas, bem como a repetição inconsciente de um mantra na meditação transcendental. Na realidade, Maharishi Mahesh Yogi[i] expressou arrependimento por sua escolha enganosa da palavra meditação, uma  vez que a verdadeira meditação sempre envolve o uso consciente da mente. A proibição de Cristo também incluiria o uso do rosário, a menos que as contas auxiliem o pensamento, em vez de prescindir dele.

E quanto às forma litúrgicas de oração? Os anglicanos seriam culpados de battalogia? Sim, sem dúvida, alguns de nós o somos, se a nossa mente simplesmente vagar. Muitos de nós, no entanto, achamos que o uso de formas estabelecidas auxilia a concentração.

Para resumir, o que Jesus proíbe seu povo de fazer é qualquer tipo de oração com a boca quando a mente não está engajada. Os pagãos lançam mão da oração porque pensam que, quanto mais falam, mais, provavelmente, serão ouvidos. Que noção inacreditável! Que tipo de Deus é esse que fica impressionado com os mecanismos e as estatísticas da oração? “Não sejam iguais a eles”, disse Jesus (v.8).

Para saber mais: Mateus 6.5-8   
  
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 [i]Guru indiano, criador da meditação transcendental. (N.T.)



sábado, 3 de julho de 2010

Deus nosso Salvador

Por João Calvino

Portanto, exorto, antes de tudo, que se usem súplicas, orações, intercessões, ações de graças em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se encontram em posição de destaque, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito. Isso é bom e aceitável aos olhos de Deus, nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.(1Tm 2.1-4)

1. Portanto, exorto, antes de tudo. Os exercícios religiosos que o apóstolo aqui ordena mantêm e fortalecem em nós o culto sincero e o temor de Deus, bem como nutrem a consciência íntegra de que falamos anteriormente. O termo, portanto, é então perfeitamente apropriado, visto que essas exortações se deduzem naturalmente do encargo que ele pusera sobre Timóteo.

Primeiramente, ele trata da oração pública e de sua regulamentação, a saber: que ela deve ser feita não só em favor dos crentes, mas em favor de todo o gênero humano. É possível que alguém argumente: “Por que devemos preocupar-nos com o bem-estar dos incrédulos, já que não mantêm nenhuma relação conosco? Não é suficiente que nós, que somos irmãos, oremos uns pelos outros e encomendemos a Deus toda a Igreja? Os estranhos não significam nada para nós”. Paulo se põe contra essa perversa perspectiva, e diz aos efésios que incluíssem em suas orações todos os homens, e não as restringissem somente ao corpo da Igreja.

Admito que não entendo plenamente a diferença entre os três ou quatro tipos de oração de que Paulo faz menção. É pueril a opinião expressa por Agostinho, a qual torce as palavras de Paulo para adequarem-se ao uso cerimonial de sua própria época. O ponto de vista mais simples é preferível, a saber: que súplicas são solicitações para sermos libertados do mal; orações são solicitações por algo que nos seja proveitoso; e intercessões são nossos lamentos postos diante de Deus em razão das injúrias que temos suportado. Eu mesmo, contudo, não entro em distinções sutis desse gênero; ao contrário, deduzo um tipo diferente de distinção. Proseucai [Proseuche] é o termo grego geral para todo e qualquer tipo de oração; e deh>seiv [deeseis] denota essas formas de oração nas quais se faz alguma solicitação específica. Portanto, essas duas palavras se relacionam como o gênero e a espécie. v´Enteu>xeiv [Enteuxeois] é o termo usual de Paulo para as orações que oferecemos em favor uns dos outros, e o termo usado em latim é intercessiones, intercessões. Platão, contudo, em seu segundo diálogo intitulado, Albibíades, usa a palavra de forma diferenciada para denotar uma petição definida, expressa por uma pessoa em seu próprio favor. Em cada inscrição do livro, bem como em muitas passagens, ele mostra claramente que proseuch [proseuche] é, como eu já disse, um termo geral.

Todavia, para não nos determos desproporcionalmente por mais tempo numa questão que não é de grande relevância, Paulo, em minha opinião, está simplesmente dizendo que sempre que as orações públicas foram oferecidas, as petições e súplicas devem ser formuladas em favor de todos os homens, mesmo daqueles que presentemente não mantêm nenhum relacionamento conosco. O amontoado de termos não é supérfluo; pois ao meu ver Paulo, intencionalmente, junta esses três termos com o mesmo propósito, ou seja, com o fim de recomendar, com o maior empenho possível, e pedir com a máxima veemência, que se façam orações intensas e constantes.

Sobre o significado de ações de graças não há nada de obscuro, pois ele não só nos incita a orar a Deus pela salvação dos incrédulos, mas também a render graças por sua prosperidade e bem-estar. A portentosa benevolência que Deus nos demonstra dia a dia, ao fazer “seu sol nascer sobre bons e maus”, é digna de todo o nosso louvor; e o amor devido ao nosso próximo deve estender-se aos que dele são indignos.

2. Em favor dos reis. Ele faz expressa menção dos reis e de outros magistrados porque os cristãos têm muito mais razão de odiá-los do que todos os demais. Todos os magistrados daquele tempo eram ajuramentados inimigos de Cristo, de modo que se poderia concluir que eles não deviam orar em favor de pessoas que viviam devotando toda a sua energia e riquezas em oposição ao reino de Cristo, enquanto que, para os cristãos, a extensão desse reino, e de todas as coisas, é a mais desejável. O apóstolo resolve essa dificuldade e expressamente ordena que orações sejam oferecidas em favor deles. A depravação humana não é razão para não se ter em alto apreço as instituições divinas no mundo. Portanto, visto que Deus designou magistrados e príncipes para a preservação do gênero humano, e por mais que fracassem na execução da designação divina, não devemos, por tal motivo, cessar de ter prazer naquilo que pertence a Deus e desejar que seja preservado. Eis a razão por que os crentes, em qualquer país em que vivam, devem não só obedecer às leis e ao comando dos magistrados, mas também, em suas orações, devem defender seu bem-estar diante de Deus. Disse Jeremias aos israelitas: “Orai pela paz de Babilônia, porque, em sua paz, tereis paz” [Jeremias 29:7). Eis o ensino universal da Escritura: que aspiremos o estado contínuo e pacífico das autoridades deste mundo, pois elas foram ordenadas por Deus.

Para que vivamos vida tranqüila e mansa. Ele acrescenta mais uma persuasão, ao mostrar como isso será proveitoso a nós próprios e ao enumerar as vantagens geradas por um governo bem regulamentado. A primeira é uma vida tranqüila, porquanto os magistrados se encontram bem armados com espada para a manutenção da paz. A menos que restrinjam o atrevimento dos homens perversos, o mundo inteiro se encherá de ladrões e assassinos. Portanto, a forma correta de conservar a paz consiste em que a cada pessoa seja dado o que é propriamente seu, e que a violência dos poderosos seja refreada. A segunda vantagem consiste na preservação da piedade, ou seja, quando os magistrados se diligenciam em promover a religião, em manter o culto divino e requerer reverência pelas coisas sacras. A terceira vantagem consiste na preocupação pela seriedade pública: pois o benefício advindo dos magistrados consiste em que impeçam os homens de se entregarem a impurezas bestiais ou a vergonha devassidão, bem como a preservar a modéstia e a moderação. Se esses três requisitos foram suprimidos, que gênero de vida será deixado à sociedade humana? Portanto, se porventura nos preocupamos com a tranqüilidade pública, com a piedade ou com a decência, lembremo-nos de que o nosso dever é diligenciarmo-nos em favor daqueles por cuja instrumentalidade obtemos tão relevantes benefícios.

Disso concluímos que os fanáticos que lutam pela supressão dos magistrados são privados de toda humanidade e promovem unicamente o barbarismo impiedoso. Que grande diferença há entre Paulo que declara que, por amor à preservação da justiça e da decência, bem como da promoção da religião, devemos orar em favor dos reis, e aqueles que dizem que não só o poder real, mas também todo e qualquer governo, são contrários à religião. O que Paulo afirma tem o Espírito Santo como Autor; conseqüentemente, o conceito dos fanáticos não tem outro autor senão o diabo.

Se porventura suscitar-se a pergunta se devemos ou não orar em favor dos reis de cujo governo não recebemos tais benefícios, minha resposta é que devemos orar por eles, sim, para que, sob as diretrizes do Espírito Santo, comecem a conceder-nos essas bênçãos, com as quais até agora não foram capazes de prover-nos. Portanto, devemos não só orar por aqueles que já são dignos, mas também pedir a Deus que converta os maus em bons governantes. Devemos manter sempre este princípio: que os magistrados são designados por Deus para a proteção da religião, da paz e da decência públicas, precisamente como a terra foi ordenada para produzir o alimento. Por conseguinte, quando oramos pelo pão de cada dia, pedimos a Deus que faça a terra fértil, ministrando-lhe sua bênção, assim devemos considerar os magistrados como meios ordinários que Deus, em Sua providência, ordenou para conceder-nos as demais bênçãos. A isso deve-se acrescentar que, se somos privados daquelas bênçãos que Paulo atribui como dever dos magistrados no-las fornecer, a culpa é nossa. É a ira de Deus que faz com que os magistrados sejam inúteis, da mesma forma que faz com que a terra seja estéril. Portanto, devemos orar pela remoção dos castigos que nos sobrevêm em virtude de nossos pecados.

Em contrapartida, os magistrados e todos quantos desempenham algum ofício na magistratura são aqui lembrados de seu dever. Não basta que restrinjam a injustiça, dando a cada um o que é devidamente seu, e mantenham a paz, se não são igualmente zelosos em promover a religião e em regulamentar os costumes pelo uso de uma disciplina construtiva. A exortação de Davi, para que [os magistrados] “beijem o Filho” [Salmo 2:12, e a profecia de Isaías, para que sejam pais da Igreja, é de grande relevância. Portanto, não terão motivo para se congratularem, caso negligenciem sua assistência na manutenção do culto divino.

3. Isso é bom e aceitável. Havendo demonstrado que o mandamento que ele promulgara é excelente, agora apela para um argumento mais enérgico, a saber: que é agradável a Deus. Pois quando sabemos que essa é a vontade, cumpri-la é a melhor que todas as demais razões. Pelo termo, “bom”, ele tem em mente o que é certo e lícito; e, visto que a vontade de Deus é a regra pela qual devemos regulamentar todos os nossos deveres, ele prova que ela é justa, porque é aceitável a Deus.

Esta passagem merece detida atenção, pois dela podemos extrair o princípio geral de que a única norma genuína para agir bem e com propriedade é acatar a e esperar na vontade de Deus, e não empreender nada senão aquilo que ele aprova. E essa é também a regra da oração piedosa, a saber: que tomemos a Deus por nosso Líder, de modo que todas as nossas orações sejam regulamentadas por Sua vontade e comando. Se essa regra não houvera sido suprimida, as orações dos papistas, hoje, não seriam tão saturadas de corrupções. Pois, como poderão provar que detêm a autoridade divina para se dedicarem à intercessão dos santos falecidos, ou eles mesmos praticarem a intercessão em favor dos mortos? Em suma, em toda a sua forma de orar, o que poderão apresentar que seja do agrado de Deus?

4. Daqui se deduz uma confirmação do segundo argumento, o fato de que Deus deseja que todos os homens sejam salvos. Pois, que seria mais razoável do que todas as nossas orações se conformarem a este decreto divino? Concluindo, ele demonstra que Deus tem no coração a salvação de todos os homens, porquanto Ele chama a todos os homens para o conhecimento de Sua verdade. Este é um argumento que parte de um efeito observado em direção à sua causa. Pois se “o evangelho é o poder de Deus par a salvação de todo aquele que crê [Romanos 1:16], então é justo que todos aqueles a quem o evangelho é proclamado sejam convidados a nutrir a esperança da vida eterna. Em suma, visto que a vocação [do evangelho] é uma prova concreta da eleição secreta, então Deus admite à posse da salvação aqueles a quem Ele concedeu a bênção de participarem de Seu evangelho, já que o evangelho nos revela a justiça de Deus que garante o ingresso na vida.

À luz desse fato, fica em evidência a pueril ilusão daqueles que crêem que esta passagem contradiz a predestinação. Argumentam: “Se Deus quer que todos os homens, sem distinção alguma, sejam salvos, então não pode ser verdade que, mediante Seu eterno conselho, alguns hajam sido predestinados para a salvação e outros, para a perdição”. Poderia haver alguma base para tal argumento, se nesta passagem Paulo estivesse preocupado com indivíduos; e mesmo que assim fosse, ainda teríamos uma boa resposta. Porque, ainda que a vontade de Deus não deva ser julgada à luz de Seus decretos secretos, quando Ele no-los revela por meio de sinais externos, contudo não significa que ele não haja determinado secretamente, em Seu íntimo, o que se propõe fazer com cada pessoa individualmente.

Mas não acrescentarei a este tema nada mais, visto o assunto não ser relevante ao presente contexto, pois a intenção do apóstolo, aqui, é simplesmente dizer que nenhuma nação da terra e nenhuma classe social são excluídas da salvação, visto que Deus quer oferecer o evangelho a todos sem exceção. Visto que a pregação do evangelho traz vida, o apóstolo corretamente conclui que Deus considera a todos os homens como sendo igualmente dignos de participar da salvação. Ele, porém, está falando de classes, e não de indivíduos; e sua única preocupação é incluir em seu número príncipes e nações estrangeiros. Que a vontade de Deus é que eles também participem do ensinamento do evangelho é por demais óbvio à luz das passagens já citadas e de outras afins. Não é sem razão que se disse: “Pede-me, e eu te darei as nações por herança, e as extremidades da terra por tua possessão” [Salmo 2:8]. A intenção de Paulo era mostrar que devemos ter em consideração, não que tipo de homens são os príncipes, mas, antes, o que Deus queria o que fossem. Há um dever de amor que se preocupa com a salvação de todos aqueles a quem Deus estende Seu chamamento e testifica acerca desse amor através de orações piedosas.

É nessa mesma conexão que ele chama Deus nosso Salvador, pois de qual fonte obtemos a salvação senão da imerecida munificência divina? O mesmo Deus que já nos conduziu à Sua salvação pode, ao mesmo tempo, estender a mesma graça também a eles. Aquele que já nos atraiu a si pode uni-los também a nós. O apóstolo considera como um argumento indiscutível o fato de Deus agir assim entre todas as classes e todas as nações, porque isso foi predito pelos profetas.

O Calvinista

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A oração do Deus filho ao Deus pai

Referência: João 17.1-26
INTRODUÇÃO
Esta é a oração mais magnífica feita aqui na terra e registrada em todas as Escrituras. Que privilégio enorme ouvir Deus, o Filho conversar com Deus, o Pai. Aqui entramos no santos dos santos. Aqui nos curvamos para auscultar os mais profundos desejos do Filho de Deus antes de caminhar para a cruz.

1.A circunstância desta oração
Jesus acabara de pregar um sermão falando do Pai aos discípulos. Agora, ele fala dos discípulos para o Pai. No ministério de Cristo, pregação e oração sempre andaram juntos. Aqueles que pregam devem também orar. Aqueles que falam de Deus para os homens, devem falar dos homens para Deus. Somente têm poder para falar aos homens aqueles que têm intimidade com Deus.

Esta oração deixa claro que Jesus foi e é o Vencedor. Ele termina o capítulo 16 encorajando seus discípulos, dizendo-lhes: “Tende bom ânimo; eu venci o mundo”.

2.O conteúdo desta oração
Jesus fez três súplicas distintas nesta oração:
a)Ele orou por si mesmo e diz ao Pai que concluiu sua obra aqui na terra (17.1-5);
b)Ele orou por seus discípulos, pedindo ao Pai que os guarde e santifique (17.6-19);
c)Ele orou por sua igreja, para que possamos ser unidos nele e para que, um dia, participemos de sua glória (17.20-26).

3.O contexto imediato desta oração
Jesus estava no prelúdio do seu sofrimento. Ele estava no cenáculo com seus discípulos. Ele já havia instituído a ceia e partido o pão. Ele já havia alertado que Judas o trairia e que os demais se dispersariam. Ele já estava mergulhando nas sombras daquela noite fatídica, onde seria preso e condenado à morte.

4.A ênfase desta oração
William McDonald, citando Marcus Rainsford fala sobre a ênfase da oração de Jesus. Jesus não disse nenhuma palavra contra seus discípulos nem fez qualquer referência à queda ou fracasso deles. Jesus foca sua oração no eterno propósito do Pai na vida dos seus discípulos e na sua relação com eles. Todas as petições de Jesus nesta oração são por bênçãos espirituais e celestiais. O Senhor não pede riquezas e honra, nem mesmo influência política no mundo para seus discípulos. O pedido de Jesus concentra-se em pedir ao Pai que os guarde do mal, que os separe do mundo, os qualifique para a missão e os traga salvos para o céu. A prosperidade da alma é a melhor prosperidade.

Podemos sintetizar a petição de Jesus em quatro áreas: salvação, segurança, santidade e unidade.

I. SALVAÇÃO (17.1-5)
1. O instrumento da salvação: A cruz de Cristo – v. 1
a)A hora tinha chegado – O nascimento, a vida e a morte de Cristo não foram acidentes, mas uma agenda traçada na eternidade. Muitas vezes Cristo disse que sua hora não tinha chegado, mas agora, a hora tinha chegado de Cristo ir para a cruz e ele vai não como um derrotado, mas como um rei caminha para o trono. É na cruz que ele cumpre o plano da redenção. É na cruz que ele esmaga a cabeça da serpente. É na cruz que ele despoja os principados e potestades. É na cruz que ele revela ao mundo o imenso amor de Deus.

b)A cruz é o instrumento de glória para o Pai – A prioridade de Jesus era a glória de Deus e sua crucificação trouxe glória ao Pai. Ela glorificou sua sabedoria, sua fidelidade, santidade e amor. Ela mostrou sua sabedoria em providenciar um plano onde ele pôde ser justo e o justificador do pecador. A cruz mostrou sua fidelidade em guardar suas promessas e sua santidade em requer o cumprimento das demandas da lei. Jesus glorificou o Pai em seus milagres (Jo 2.11; 11.40), mas o Pai foi ainda mais glorificado por meio dos sofrimentos e da morte do Filho (Jo 12.23-25; 12.31,32).

c)A cruz é o instrumento de glória para o Filho – A cruz glorificou sua compaixão, sua paciência e seu poder, em dar sua vida por nós, dispondo-se a sofrer por nós, a se fazer pecado por nós, a se fazer maldição por nós para comprar-nos com seu sangue. Cristo não foi para a cruz como uma vítima arrastada ao altar do holocausto. Ele disse: “Ninguém tira a minha vida, pelo contrário, eu espontaneamente a dou”. Paulo disse: “Cristo me amou e a si mesmo se entregou por mim”.

2. A essência da salvação – v. 2,3
a)Jesus recebeu autoridade para dar a vida eterna (v. 2) – A vida eterna é uma dádiva do Pai oferecida pelo Filho. Todo aquele que nele crê tem a vida eterna. Quem nele crê não entra em juízo, mas passou da morte para a vida. Não há vida eterna fora de Jesus Cristo. Só ele pode nos conduzir a Deus. Só ele é o caminho para Deus. Só ele pode nos reconciliar com Deus. Só ele é a porta do céu.

b)Conhecer o Pai, o único Deus (v. 3) – A vida eterna é mais do que um tempo interminável nos recônditos da eternidade. A vida eterna não é quantidade, mas qualidade. A vida eterna é um relacionamento íntimo e profundo com Deus, num deleite inefável do seu amor para todo o sempre. Não é apenas conhecimento teórico, mas relacionamento íntimo. A vida eterna é experimentar o esplendor, o gozo, a paz, e a santidade que caracteriza a vida de Deus.

c)Conhecer a Jesus, o enviado de Deus (v. 3) – A vida eterna é conhecer a Deus por meio de Jesus. Ele é o mediador que veio nos reconciliar com o Pai. Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo (2Co 5.18). A vida eterna não é um prêmio das obras, mas uma comunhão profunda com Jesus por toda a eternidade.

3. A consumação da salvação – v. 4
a)A salvação é uma obra consumada – A salvação não é um caminho que abrimos da terra para o céu. A salvação foi uma obra que o Pai confiou ao Filho e ele veio e a terminou. Temos a salvação pela completa obediência de Jesus e pelo seu sacrifício vicário. Na cruz ele bradou: “Está consumado”. Não resta mais nada a fazer. Ele já fez tudo. Esta expressão significa três coisas: 1) Quando um pai dava uma missão ao filho e este a cumpria, dizia para o pai: “Tetélestai”; 2) Quando se pagava uma nota promissória: batia-se o carimbo: “Tetélestai”; 3) Quando se recebia a escritura de um terreno, escrevia-se na escritura: “Tetélestai”.

4.A recompensa da salvação – v. 5
a)Jesus pede para reassumir a mesma glória que tinha antes da encarnação – Cristo veio do céu, onde desfrutou de glória inefável com o Pai desde toda a eternidade. Abriu mão de sua majestade e se esvaziou e se humilhou a ponto de ser chamado apenas do Filho do carpinteiro. Mas, agora, volta para o céu e retoma seu posto de glória, de honra e de majestade.

b)Jesus pede para que sua igreja veja a mesma glória que ele terá no céu – v. 24 – Vamos compartilhar da glória de Cristo. Estaremos com ele, reinaremos com ele e o veremos face a face (1Jo 3.2). Não apenas estaremos no céu, mas estaremos em tronos. Reinaremos com ele por toda a eternidade.

II. SEGURANÇA (17.6-14)
1. A nossa segurança está fundamentada na eleição do Pai – v. 2,6,8,9,11,12,24
Sete vezes Jesus afirmou que os discípulos lhe foram dados pelo Pai. Não apenas Jesus é o presente de Deus para a igreja; a igreja é o presente do Pai para Jesus. Não fomos nós que encontramos a Deus, foi ele quem nos encontrou. Não fomos nós que o amamos a Deus, foi ele quem nos amou primeiro. Não fomos nós que escolhemos a Deus, foi ele quem nos escolheu. Nós fomos nós que viemos a Cristo, foi o Pai que nos trouxe a ele.

A segurança da nossa salvação não está fundamentada no nosso caráter, mas no caráter de Deus e na obra perfeita de Cristo. É ele quem nos guarda. É ele quem nos livra. É ele quem nos salva, nos conduz e nos leva para o céu.

João 6.37-40 nos fala que aqueles que o Pai dá a Jesus, esses vêm a Jesus e os que vêm a ele, de maneira ele os lançará fora.

2. A nossa segurança está baseada no cuidado de Cristo – v. 12
Jesus é o bom pastor que deu sua vida pelas ovelhas. Ele cuida da suas ovelhas e as conduz ao céu. Jesus guardou e protegeu seus discípulos e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição. Por que Jesus não guardou a Judas? Pelo simples motivo de que Judas nunca pertenceu a Cristo. Jesus guardou fielmente todos os que o Pai lhe deu, mas Judas nunca lhe foi dado pelo Pai. Judas não cria em Jesus Cristo (Jo 6.64-71); não havia sido purificado (Jo 13.11); não estava entre os escolhidos (Jo 13.18); não havia sido entregue a Cristo (Jo 18.8,9). Judas não é, de maneira alguma, um exemplo de cristão que “perdeu a salvação”. Antes, exemplifica um incrédulo que fingiu ser salvo e que, no final, foi desmascarado.

Se Jesus pôde guardar e proteger seus discípulos em seu corpo de humilhação, quando mais em seu corpo de glória. Se ele pôde guardar seus discípulos enquanto viveu na terra, quanto mais ele pode nos guardar entronizado à destra do Pai em seu trono de glória!

3. A nossa segurança está baseada na intercessão de Cristo – v. 9,11,15,20
Cristo orou pelos seus discípulos. Nas suas diversas dificuldades, Jesus intercedeu por eles. Ele orou por quando estavam passando por tempestades (Mt 14.22-33). Ele orou por Pedro quando este estava sendo peneirado pelo diabo. Agora ele ora por eles antes de ir para o Getsêmani.

Jesus fez dois pedidos fundamentais em relação aos discípulos:

1) Que eles fossem guardados do mundo (v. 14) – O mundo é um sistema que se opõe a Deus. O mundo odeia os discípulos. Eles precisam ser guardados de serem tragados pelo mundo. Demas tendo amado o mundo abandonou a fé.

2) Que eles fossem guardados do maligno (v. 15) – O mal aqui seria melhor traduzido por “maligno” como na oração do Senhor. O maligno é um inimigo real. Ele entrou em Judas e o levou pelo caminho da morte. Paulo diz que ele cega o entendimento dos incrédulos. Paulo diz que devemos ficar firmes contra as ciladas do diabo (Ef 6.11). E Pedro diz que o diabo anda ao nosso redor buscando a quem possa devorar (1Pe 5.8). Paulo diz que nós não lhe ignoramos os desígnios (2Co 2.11).

A Bíblia diz que Jesus está à destra de Deus e intercede por nós (Rm 8.34). E que podemos ter segurança de salvação, porque ele vive para interceder por nós no céu (Hb 7.25).

III. SANTIDADE (17.15-20)
A nossa entrada no céu será inteiramente pela graça e não pelas obras; mas o céu em si mesmo não seria céu para nós sem um caráter sem santidade. Nossos corações devem estar sintonizados no céu antes de nos deleitarmos nele. Somente o sangue de Cristo pode nos capacitar a entrar no céu, mas somente a santidade pode nos capacitar a regozijarmo-nos nele.

1. Somos santificados pela Palavra – v. 8,14,17
Cristo nos transmitiu a Palavra (v. 8) e nos deu a Palavra (v. 14). A Palavra de Deus é a dádiva de Deus para nós. A Palavra é de origem divina, é uma dádiva preciosa do céu. Agora, somos santificados pela Palavra (v. 17). A Palavra é a verdade e não apenas contém a Palavra (v. 17). A Palavra é o instrumento da nossa santificação (v. 17). Sem o conhecimento da Palavra não há crescimento espiritual. Dwight Moody escreveu na capa de sua Bíblia: “Este livro afastará você do pecado ou o pecado afastará você deste livro”. Jesus disse: “Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15.3).

A Palavra é a arma da vitória. Ela é a espada do Espírito. De que maneira a Palavra de Deus nos permite vencer o mundo?
Em primeiro lugar, ela nos dá alegria (17.13). A alegria do Senhor é a nossa força (Ne 8.10).
Em segundo lugar, ela nos dá a certeza do amor de Deus (17.14). O mundo nos odeia, mas o Pai nos ama. O mundo deseja tomar o lugar do amor do Pai em nossa vida (1Jo 2.15-17).
Em terceiro lugar, ela nos transmite o poder de Deus para vivermos em santidade (17.15-17).
Em quarto lugar, ela é o instrumento pelo qual Deus chama as pessoas à salvação (17.20). A igreja não cria a mensagem, ela a anuncia. Deus salva por meio da Palavra. Não é o conhecimento da igreja, não é a eloqüência do pregador nem os métodos que usamos, mas o poder da Palavra de Deus que leva o homem a Cristo.

Hoje somos chamados a geração coca-cola, a geração Internet, a geração shopping center e também a geração analfabeta da Bíblia. Quero desafiar esta igreja a ser estudiosa das Escrituras. Quero desafiar os jovens a serem estudiosos das Escrituras.

2. Somos santificados pelo correto relacionamento com o mundo
a)Não somos do mundo (v. 14,16) – Não somos do mundo. Nascemos de cima, do alto, do Espírito. Nossa origem é do alto. Devemos buscar as coisas lá do alto. Jesus disse: “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia” (Jo 15.18,19).

b)Somos odiados pelo mundo (v. 14) – O mundo nos odeia porque pertencemos a Cristo. A Bíblia diz que quem se faz amigo do mundo, constitui-se em inimigo de Deus (Tg 4.4). Diz ainda que quem ama o mundo, o amor do Pai não está nele (1Jo 2.14-16). O apóstolo Paulo diz que não podemos nos conformar com este mundo (Rm 12.2).

c)Somos chamados do mundo (v. 19) – Jesus se separou para salvar os discípulos e agora devemos nos santificar para ele. A palavra santificar é separar. Essa separação não é geográfica, mas moral e espiritual.

d)Estamos no mundo, mas somos guardados do mundo (v. 11, 15) – A santidade não é isolamento. A santidade não tem a ver com a geografia e o espaço. Não é guetificar-se entre quatro paredes. Não perder o contato com as pessoas. Precisamos estar presentes no mundo como sal e luz. Precisamos influenciar, pois o somos o perfume de Cristo. Precisamos estar presentes, pois, somos a carta de Cristo lida por todos os homens. Porém, estamos no mundo como luzeiros. Estamos no mundo para apontar o rumo para Deus. O objetivo do cristianismo jamais foi de apartar o homem da vida, mas equipá-lo para enfrentá-la vitoriosamente. O cristianismo não nos oferece escapes, mas poder para o enfrentamento. Oferece não uma paz fácil, mas uma luta triunfante.

e)Somos enviados de volta ao mundo (v. 18) – Jesus nos deu uma missão e uma estratégia. Devemos ir ao mundo como Cristo veio ao mundo. Ele se tabernaculou. Ele se fez carne. Ele foi amigo dos pecadores. Ele recebeu os escorraçados. Ele abraçou os inabraçáveis. Ele tocou os leprosos. Ele se hospedou com publicanos. Sua santidade não o isolou, mas atraiu os pecadores para serem salvos.

IV. UNIDADE (17.21-26)
Quão doloroso tem sido o fato de que divisões, contendas e desavenças na igreja têm provocado escândalos diante do mundo e enfraquecido a igreja de Cristo. Não raro, muitos cristãos têm empregado suas energias contendendo uns contra os outros, em vez de lutar contra o pecado e o diabo.

A unidade de que Jesus está falando não é externa. Não é unidade de organização nem unidade denominacional. Também Jesus não está falando de ecumenismo. A idéia de unir todas as religiões, afirmando que doutrina divide, mas o amor une é uma falácia. Não há unidade fora da verdade (Ef 4.1-6).

A unidade da igreja é: sobrenatural, tangível e evangelizadora.

Os discípulos mostraram um espírito de egoísmo, competitividade e desunião. Thomas Brooks, escreveu: “A discórdia e a divisão não condizem com cristão algum. Não causa espanto os lobos importunarem as ovelhas, mas uma ovelha afligir outra é contrário à natureza e abominável”.

Quais são as razões para a igreja buscar a unidade?

1. Porque Jesus pediu isso ao Pai – v. 11,20,21,22
Jesus só tem uma igreja, um rebanho, uma noiva. A unidade da igreja é o desejo expresso de Jesus, o alvo da sua oração, a expressa vontade do Pai.

2. Por causa da nossa origem espiritual – v. 21
Se nós somos filhos de Deus e membros da sua família não podemos viver em desunião. Não há desarmonia entre o Pai e o Filho. Nunca houve tensão nem conflito entre a vontade do Pai e do Filho. Se nós nascemos de Deus, se nós nascemos do Espírito, se nós somos co-participantes da natureza divina. Se Jesus é o nosso Senhor, então, não podemos viver brigando uns com os outros. Não estamos disputando uns com os outros. Somos irmãos, filhos do mesmo Pai. Nossa origem espiritual nos compele imperativamente a buscar a unidade e não a desunião (Fp 2.1,2).

3. Por causa da nossa missão no mundo – v. 21,23
O mundo perdido não é capaz de ver Deus, mas pode ver os cristãos. Se enxergar amor e harmonia, crerá que Deus é amor. Se enxergar ódio e divisão, rejeitará a mensagem do evangelho. As igrejas que competem entre si não podem evangelizar o mundo. A unidade da igreja é a apologética final segundo Francis Schaeffer. O maior testemunho da igreja é a comunhão entre seus irmãos, é o amor que com se amam. Jesus disse que a prova definitiva do discipulado é o amor (Jo 13.34,3).

Não há evangelização eficaz sem a unidade da igreja. Não temos autoridade para pregar ao mundo para se arrepender ser estamos travando batalhas internas dentro da igreja. Alguns cristãos em lugar de serem testemunhas fiéis são advogados de acusação e juízes e, com isso, afastam os pecadores do Salvador.

Jesus falou sobre três níveis do amor: o amor ao próximo, o amor sacrificial e o amor da trindade. É esse amor trinitariano que ele pede que haja entre os crentes. Ilustração: o purê de batatas.

4. Por causa do nosso destino eterno – v. 24-26
Jesus pede ao Pai para que seus discípulos vejam sua glória e estejam no céu com ele. Se vamos estar no céu, se vamos morar juntos por toda a eternidade, como podemos afirmar que não podemos conviver uns com os outros aqui? Precisamos aprender a viver como família de Deus desde já, pois vamos passar juntos toda a eternidade.

Esta parte da oração é cheia de doçura e conforto indizível. Nós não vemos a Cristo agora. Nós lemos sobre ele, ouvimos dele, cremos nele, e descansamos nossa alma em sua obra consumada. Mas, aqui ainda andamos por fé e não por vista. Porém, em breve, estaremos no céu com Jesus, e então, essa situação vai mudar. Então, veremos a Cristo face a face. Então, vê-lo-emos como ele é. Então conheceremos como também somos conhecidos. Se já temos gozo indizível andando pela fé, quanto mais quando estivermos na glória com ele, num corpo glorificado, junto àquela gloriosa assembléia de santos. Paulo diz, “e assim estaremos para sempre com o Senhor”. E recomenda: “Consolai-vos uns aos outros com essas palavras”.