"Todo aquele que ler estas explanações, quando tiver certeza do que afirmo, caminhe lado a lado comigo; quando duvidar como eu, investigue comigo; quando reconhecer que foi seu o erro, venha ter comigo; se o erro for meu, chame minha atenção. Assim haveremos de palmilhar juntos o caminho da caridade em direção àquele de quem está dito: Buscai sempre a Sua face."

Agostinho de Hipona



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O contraste entre o justo e o ímpio

O livro dos Salmos é uma coletânea de cânticos, orações e lamentos do povo de Deus, escrito por vários autores, desde os dias de Davi até o período pós-cativeiro babilônico. Há mais de cem citações do livro de Salmos no Novo Testamento. Isso prova sua relevância na história da redenção. Esse livro tem sido uma fonte de consolo para a igreja de Deus ao longo dos séculos até aos dias atuais. 

O Salmo 1 é a porta de entrada deste, que é o maior livro da Bíblia. Destacaremos, aqui, três lições importantes deste Salmo.

Em primeiro lugar, um contraste profundo é apresentado. O autor sagrado faz um profundo contraste entre o ímpio e o justo. Enquanto o ímpio é como uma palha que o vento dispersa, o justo é como uma árvore plantada junto à fonte. Enquanto o ímpio está seco espiritualmente, o justo tem verdor mesmo nos tempos de sequidão. Enquanto o ímpio não tem frutos que agradam a Deus, o justo produz frutos na estação certa. Enquanto o ímpio não tem estabilidade e é jogado de um lado para o outro pelo vendaval, o justo tem suas raízes firmadas no solo da fidelidade de Deus. Enquanto o ímpio tem suas obras reprovadas por Deus, o justo tem sucesso em tudo quanto faz. Enquanto o ímpio busca a roda dos escarnecedores, o justo se deleita na lei do Senhor. Enquanto o ímpio não terá assento na assembleia do santos nem prevalecerá no juízo, o justo será conduzido por Deus na história e recebido na glória. Enquanto o caminho do ímpio perecerá, o caminho do justo é conhecido por Deus. É tempo de você refletir sobre sua vida. Quem é você? Onde está o seu prazer? Onde está o seu tesouro? Em qual dessas duas molduras você pode colocar sua fotografia? Lembre-se: o ímpio pode parecer feliz, mas seu fim é trágico. Mas, o justo, mesmo passando por provas na vida, é bem-aventurado. 

Em segundo lugar, um caminho de felicidade é descortinado. A felicidade existe e pode ser experimentada. É legítima e compatível com a fé cristã. Essa iguaria especial da alma não se encontra no conselho dos ímpios, daqueles que se esquecem de Deus. Esse tesouro tão cobiçado não é encontrado no caminho largo dos pecadores nem mesmo na mesa, onde os escarnecedores rasgam a cara em ruidosas gargalhas prenhes de escárnio. Onde está a felicidade? Você é feliz em primeiro lugar, por aquilo que evita. Você sorve o néctar da felicidade quando tapa os ouvidos ao conselho dos ímpios, quando afasta seus pés do caminho dos pecadores e quando não busca um lugar junto à mesa na roda dos escarnecedores. Em segundo lugar, você é feliz por aquilo que você faz. Uma pessoa feliz nutre sua alma com os jorros benditos que emanam da lei de Deus. A felicidade está em alimentar a mente com a verdade de Deus e ser governado por essa verdade. Em terceiro lugar, você é feliz por quem você é. Uma pessoa feliz é como uma árvore frondosa, de folhas viçosas e frutos excelentes, que mesmo na adversidade, não perde sua beleza nem escasseia seus frutos. Uma pessoa feliz tem sucesso constante, uma vez que tudo quanto faz será bem sucedido. 

Em terceiro lugar, um juízo inevitável é anunciado. Os ímpios são aqueles que não levam Deus em conta. Esses não têm segurança diante das tempestades da vida e serão levados como a palha que o vento dispersa. Os pecadores são aqueles que deliberada e conscientemente andam na contramão da vontade de Deus e transgridem a lei de Deus. Esses, mesmo sendo religiosos e tendo seu nome no rol de membros de uma igreja não permanecerão na congregação dos justos. Os perversos são aqueles que, além de rejeitarem a verdade, escarnecem de Deus e zombam da fé cristã. Esses podem prevalecer no juízo dos homens, subornando os tribunais e amordaçando a justiça, mas jamais prevalecerão no juízo de Deus. Ímpios, pecadores e perversos podem vender uma imagem glamorosa do pecado e podem passar a imagem de que estão sorvendo todas as taças da felicidade, mas sua alegria é ilusória, sua vida é vazia e sua condenação no juízo é certa. É preciso abrir os ouvidos da alma para escutar a retumbante voz do salmista, quando conclui, dizendo: “Pois o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá”.

Rev. Hernandes Dias Lopes

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Estamos todos embriagados!

No momento estamos todos embriagados. Quem dera fosse pelo Espírito, mas certamente não o é.

Estamos perigosamente embriagados pela carne. Embriagados pela competição que nem mais consegue ser velada. Estamos embriagados pela busca por nome, fama, poder, primeiro lugar, glória. Só pensamos em conquistas grandiosas: um país protestante (não necessariamente cristão), um presidente protestante (não necessariamente ficha limpa), uma igreja cada vez maior do que outra (não necessariamente santa), um templo cada vez mais amplo e suntuoso (não necessariamente livre dos célebres vendilhões do tempo de Jesus).
Não falamos em pecado. Não falamos em arrependimento. Não falamos em conversão. Não falamos em caminho apertado. Não falamos do “negue-se a si mesmo” de Jesus. Não falamos em santidade. Não falamos da glória por vir.

Só falamos de gente, de multidões, de números. Só falamos de autoajuda, de dinheiro, de cura, de sucesso financeiro, de bens móveis e imóveis, de milagres. Só falamos do presente. Só falamos dos cantores gospel e de eventos retumbantes.

Apresentamo-nos como bispos, apóstolos, patriarcas e papas. Fazemos questão de dizer que somos ao mesmo tempo doutor em teologia, em ciências da religião, em divindade e em filosofia. Esbanjamos títulos e nomes. Estamos todos, de fato, embriagados.

Só nos preocupamos com o crescimento de igrejas. É o assunto do momento. Criamos métodos, estratégias, alvos. Muitos deles importados do mundo secular, das empresas bem-sucedas, dos especialistas em marketing. Usamos roupas de grife, somos artificiais nos gestos e na entonação de voz. Impressionamos os auditórios, chamamos a atenção para nós e embriagamos também o público. Aceitamos as palmas e pedimos bis. Essa embriaguez nos tornou secularizados. Outrora saímos das trevas e viemos para a luz. Agora estamos saindo da luz e voltando para as trevas.

Essa embriaguez de líderes e liderados está provocando o que hoje se vê claramente: comparações, competições, rivalidades, divisões, mudanças litúrgicas, descontentamento, escândalos, descrença e apostasia. Em nenhum outro tempo houve uma multiplicação tão grande e tão rápida de denominações. Em nenhum outro tempo aconteceu um entra-e-sai de uma igreja para outra tão acentuado como agora. Em nenhum outro tempo o rol dos sem-religião aumentou tanto.

Essas são algumas conseqüências a médio e longo prazo da nossa embriaguez, da qual muitos ainda não têm consciência.

Usamos a palavra todos neste texto de forma retórica. Ainda há muitas pessoas cuidadosas, tanto entre pastores e líderes como entre cristãos comuns. O trigo nunca desaparece. Mesmo naquelas ocasiões em que o joio é maior do que ele.

Se houver uma corajosa reviravolta da soberba mundana para a humildade cristã, a história atual da igreja poderá ser revertida. Afinal, há cura para a embriaguez! O primeiro passo dos alcoólicos anônimos é admitir que são impotentes para reverter sozinhos qualquer problema de conduta. Daí a necessidade de pedir socorro ao poderoso e amoroso Deus!

Texto extraído da Revista Ultimato – novembro-dezembro 2011 – Ano XLIV – nº 333
Artigo intitulado: Orgulho o caminho mais curto para o tombo         

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Atenda ao aviso

Por J.C.Ryle

Quando um homem está em perigo, é um ato de bondade avisá-lo e deixá-lo alerta, em guarda. Todos nós sabemos isto. Agora eu quero que você avalie bem se seus pecados estão perdoados. Você tem pecados, quanto a isto não há dúvida. Sua própria consciência lhe diz isso. Estes pecados têm que ser perdoados antes que você morra, ou você não pode ser salvo. O ponto central que eu gostaria que você ponderasse bem é este: que se os seus pecados não estão perdoados, então sua alma está em uma condição de terrível perigo. Em uma palavra, eu venho neste dia como um amigo, para rogar-lhe que atenda o aviso. A consciência acusa segundo a lei.

Os pecados têm que ser cuidados já antes de morrer – Sua alma está em terrível perigo. Você pode morrer este ano. E [por melhor que você pense ser] se você morrer na situação em que você está, você está perdido para sempre. Se você morrer sem ter recebido o perdão, sem perdão você ressuscitará no último dia. Há uma espada sobre sua cabeça que está suspensa por um único fio de cabelo. Não há senão um passo de distância entre você e a morte. Oh, eu fico perplexo, como pode você dormir calmamente em sua cama?!

Você ainda não é um perdoado. Então o que tem você conseguido através da sua religião, assumindo que você tem uma religião? Talvez você vá à igreja ; você pode mesmo ter uma Bíblia; você vai à missa ou culto, e à comunhão. Mas o que tem você realmente conseguido, afinal de contas? Alguma esperança? alguma paz? alguma alegria e conforto? Nada, literalmente nada. Você não conseguiu nada a não ser meras coisas temporárias, se você não é uma alma perdoada.

Você ainda não é um perdoado; mas você confia que Deus será misericordioso. E por que Ele deve ser misericordioso, se você não O procura pelo caminho [e segundo o modo] por Ele mesmo ordenado? Sem dúvida nenhuma, Ele é misericordioso, maravilhosamente misericordioso para todos que vêm a Ele no nome [e nos termos] de Jesus [nos termos da Bíblia]. Mas se você escolhe desprezar Suas direções e tentar fazer uma estrada para o céu ao seu próprio modo, você descobrirá, para sua perda [terrível e eterna], que não há nenhuma misericórdia para você.

Você ainda não é perdoado; mas você diz que tem uma vaga esperança-desejo que algum dia você o será. Eu não posso me afastar satisfeito e tranqüilizado com essa sua palavra. É como empurrar para longe, violentamente, a mão que a consciência amorosamente lhe estende, depois agarrar essa mesma consciência e apertá-la pela garganta, para calar a sua voz. Por que você seria mais propício a procurar perdão num tempo futuro? Por que você não o procura agora? Agora é o tempo para recolher o pão da vida. O dia do Senhor se aproxima rapidamente, e então nenhum homem poderá trabalhar, porque a sétima trombeta logo soará. Os reinos deste mundo logo tornar-se-ão os reinos de nosso Deus e de seu Cristo. Ai da casa que é encontrada sem a cordinha cor de escarlate, e sem a marca do sangue aplicado acima da porta (Josué 2:18; Êxodo 12:13).

Você talvez acredita que exista perdão de pecados; você acredita que Cristo morreu por pecadores, e que Ele oferece perdão para o mais ímpio pecador. Isso é essencial se você quer ser salvo. Mas que proveito há para você [a disponibilidade de] o perdão, se você mesmo não tiver o benefício dele [sendo aplicando a você, pessoalmente]? Que aproveita ao marinheiro naufragado ter o bote salva-vidas esperando próximo no mar, se o náufrago se prender ao navio que está naufragando, e não saltar para dentro do salva-vidas e escapar? Que aproveita ao homem doente o médico lhe oferecer um medicamento infalível, se ele somente olha e não o engole? A não ser que você faça provisão para sua própria alma, você estará tão certamente perdido como se, de modo nenhum, houvesse nenhum perdão [disponível].

Se seus pecados nunca foram perdoados, eles tem que o serem agora. Agora, nesta vida, nunca na vida vindoura; agora neste mundo, têm que ser para sempre apagados. Tem que ter sido estabelecida uma [real e eterna] ligação pessoal entre você e Cristo. Seus pecados [ó meu amigo] têm que ter sido, pela fé, colocados sobre Ele; justificação tem que ter sido colocada sobre você. O sangue do Cristo tem que ter sido aplicado à sua consciência e à sua alma [ó meu amigo], ou, do contrário, seus pecados o encontrarão no dia do julgamento, e você afundará no inferno. Oh, como pode você perder tempo quando tais coisas estão em jogo? Como pode você estar satisfeito deixando na incerteza se você está perdoado? Certamente, que um homem possa com antecedência tomar providências concernentes à sua morte, fazer um testamento , fazer um seguro de vida [para proteger sua família], dar instruções sobre seu funeral, e deixar o destino da sua alma na incerteza, certamente é uma coisa assombrosa.

Bem, amigo, você pode até não sentir seu perigo, agora. Você pode até não conseguir enxergar a imperiosa necessidade de procurar perdão, imediatamente. [Mas] um tempo pode vir quando você modificará sua mente. Que o Senhor, em misericórdia, conceda que não seja, então, tarde demais.

(Este folheto foi escrito por John Ryle, o primeiro bispo de Liverpool, no século dezenove. É válido, hoje, porque o coração do homem permanece o mesmo, enganoso sobre todas as coisas e desesperadamente perverso.)

Traduzido por Valdenira N.M. Silva, fev. 2004.

FONTE: Comunidade Anglicana do Salvador

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Um alerta solene à igreja

Hoje é o primeiro dia do ano de 2012. É tempo de balanço, de reflexão, de tomada de decisões. É tempo de despojarmo-nos daquilo que foi apenas peso e comprometermo-nos com princípios e valores que deixamos para trás. Muito embora tenhamos recebido bênçãos sem medida, e todas como expressão da graça de Deus, reconhecemos que a igreja poderia ter sido mais santa, mais unida, mais operosa, mais dinâmica, mais alegre, mais cheia do Espírito Santo. O importante agora é avaliarmos onde falhamos e fazermos uma correção de rota para não repetirmos os mesmos erros e para buscarmos, com afinco, aquilo que deixamos de fazer. Cabe-nos, alinharmos nossas ações com os preceitos da Palavra, e vivermos de modo digno do Evangelho neste novo ano que recebemos. Para isso, três atitudes devem ser observadas:

1. Precisamos fugir do secularismo que mundaniza a igreja. O secularismo é uma realidade inegável. É a ideia de que Deus não interfere em todas as áreas da nossa vida. No domingo somos crentes; durante a semana vivemos a vida do nosso jeito e ao nosso gosto. O que vemos, ouvimos, falamos, fazemos ou deixamos de fazer não é mais regido pelos preceitos das Escrituras. Dicotomizamos a vida em secular e sagrado. Assim, namoro, casamento, negócios e lazer pertencem a área do secular e nessas áreas amoldamo-nos aos ditames do mundo e não aos preceitos da Palavra. Nossas festas, embora precedidas por um culto a Deus, estão se tornando cada vez mais mundanas, onde não faltam bebidas alcoólicas, músicas profanas, danças sensuais, e todos os apetrechos importados das boates mais especializadas no lazer mundano. O mundo está entrando na igreja e a igreja está se amoldando ao mundo. Colocamos o pé no freio ou a igreja será sal sem sabor e luz debaixo do alqueire. Voltamo-nos para Deus para consagrar todas as áreas da nossa vida a ele ou a igreja perderá seu poder, seu testemunho e sua relevância no mundo. 

2. Precisamos fugir do legalismo que oprime a igreja. O legalismo é um caldo mortífero que adoece a igreja em nome da verdade. Os legalistas coam mosquito e engolem camelo. Brigam por aquilo que é secundário e transigem com aquilo que é essencial. Em nome do zelo espiritual ferem pessoas, perturbam a paz e quebram os vínculos da comunhão. Os legalistas agem como os fariseus que acusavam Jesus de pecado por curar no dia de sábado, mas não viam seus próprios pecados quando tramavam a morte de Jesus no sábado. Os legalistas são aqueles que reputam a sua interpretação das Escrituras como infalível e atacam como os escorpiões do deserto aqueles que discordam da sua visão extremada, chamando-os de hereges. O legalismo é fruto do orgulho e desemboca na intolerância. Em nome da verdade, sacrifica a própria verdade e insurge-se contra o amor. O legalismo é reducionista, uma vez que repudia todos aqueles que não olham para a vida pelas suas lentes embaçadas. O legalismo professa uma ortodoxia morta; uma ortodoxia sem amor e sem compaixão. Não podemos caminhar por essa estrada. Aqueles que o fizeram no passado colheram frutos amargos. Acautelemo-nos! 

3. Precisamos fugir do liberalismo e do sincretismo que atacam a igreja. O liberalismo tira da Escritura o que nela está e o sincretismo acrescenta a ela o que nela não pode estar. O liberalismo nega a inerrância e a infalibilidade da Escritura e o sincretismo nega a suficiência da Escritura. A igreja de Deus é aberta a todos, mas não aberta a tudo. Devemos acolher as pessoas sem acepção, mas não podemos abrigar tudo sem exceção. As pessoas devem ser aceitas na igreja; não o pecado. Não podemos tolerar o erro. Não podemos transigir com falsas doutrinas. Não podemos fazer vistas grossas aos falsos ensinos. Não podemos abrir nossas portas às novidades do mercado da fé. Não podemos transigir com a verdade para atrair pessoas à igreja. Não podemos negociar princípios e valores para buscarmos o crescimento da igreja. Nosso compromisso é alimentar as ovelhas e não entreter os bodes. Que Deus nos ajude a caminharmos vitoriosamente em 2012!


sábado, 7 de janeiro de 2012

O valor das pessoas (as ovelhas)

Tendo com base a narrativa estabelecida em Atos 20:28-35, na qual o Apóstolo Paulo exorta aos presbíteros efésios quanto a si mesmos e às suas ovelhas, [...] É bom notar que ao desenvolver a metáfora pastoral, Paulo descreveu o seu próprio ministério (como o “pastor” deles), alertou-os contra os falsos mestres (“lobos”) e afirmou os valor dos membros de sua igreja (o “rebanho” de Deus) [...]

[...] Notamos que os pastores efésios devem primeiro vigiar a si mesmos, e só depois ao rebanho que lhes foi confiado pelo Espírito Santo. Pois eles não podem dar um cuidado adequado aos outros se negligenciarem o cuidado e a instrução de suas próprias almas. Eles devem “pastorear” a igreja de Deus; poinomaino, em termos gerais, significa “cuidar” de um rebanho e, em específico, “levar um rebanho ao pasto para alimentá-lo”. Essa é a primeira tarefa dos pastores. “Não apascentarão os pastores as ovelhas? (Ez. 34:2) E se os pastores se lembrarem que seu rebanho é a igreja de Deus, a qual  Ele comprou com o Seu próprio sangue, então, serão mais diligentes em seu próprio ministério. [...]

[...] no versículo 28, está implícita a verdade de que a supervisão pastoral da igreja, em última análise, pertence a Deus. De fato, cada uma das três pessoas da Trindade tem sua parte nessa supervisão. Para começar, a igreja é a “igreja de Deus”. Depois, que entendamos que Ele a redimiu “com o Seu próprio sangue” ou “com o sangue de Seu próprio”[i], é claro que a transação foi paga com o sangue de Cristo. E o Espírito Santo designa supervisores para essa igreja que pertence a Deus e foi comprada por Cristo. Assim, a supervisão também é dEle, caso contrário Ele não poderia delega-la a outros. Essa esplêndida afirmação trinitária, de que a supervisão pastoral da igreja pertence a Deus (Pai, Filho e Espírito Santo), deveria ter um profundo efeito nos pastores. 

Ela deveria nos humilhar, lembrando-nos que a igreja não é nossa, mas de Deus. E ela deveria inspirar-nos fidelidade.  Pois as ovelhas não são, de modo algum, aquelas criaturas limpas e doces que aparentam ser. Na verdade são sujas, sujeitas a doenças desagradáveis, sendo preciso banhá-las regularmente em remédios fortes para livrá-las de piolhos, carrapatos e vermes. Elas também são geniosas, obstinadas e pouco inteligentes. Hesito em aplicar essa metáfora ao pé da letra, dizendo que o povo de Deus é sujo, piolhento ou estúpido! Mas algumas pessoas são uma grande provação para seus pastores (e vice-versa). E seus pastores só vão perseverar em cuidar delas se lembrarem como elas são valiosas para Deus. 

Elas são o rebanho de Deus o Pai, compradas pelo precioso sangue de Deus o Filho, e supervisionadas por pessoas indicadas por Deus o Espírito Santo. Se as três pessoas da Trindade se empenham tanto pelo bem-estar do Seu povo, não deveríamos fazer o mesmo?

O grande livro de Richard Baxter, The Reformed Pastor (1956), é uma exposição de Atos 20:28. Ele escreveu:

Ouçamos, então, esse argumento de Cristo, toda vez que sentimos que estamos ficando insensíveis e descuidados: “Morri  por eles, e não olhareis por eles? Valiam eles o meu sangue, e não valem o vosso trabalho? Desci dos céus para a terra para buscar e salvar ao que estava perdido; e não ireis vós até a casa ao lado, a próxima rua, a próxima aldeia, para procurá-los? Quão pequeno é o vosso trabalho e condescendência comparado ao meu? Eu me rebaixei a esse ponto, mas é vossa honra serdes assim empregados. Sofri e fiz tanto pela salvação deles; e desejava fazer de vós meus cooperadores, e recusais o pouco que está em vossas mãos?



[i] Esse sentido de ídios (“próprio”), escreve F. F. Bruce, “é bem atestado pelos papiros, onde é ‘usado desse modo, como termo carinhoso em referência a parentes próximos’ ”. (Bruce, English, p. 416, nota 59; Bruce está citando J. H. Moulton, Grammar of New Testament Greek, (Edinburgh, 1906), p. 90) 

Texto extraído da série A Bíblia Fala Hoje, A Mensagem do Atos, Até os Confins da Terra, John Stott